TAPETE VERMELHO!
Outro dia fui à casa de um amigo meu que há algum tempo não via. Cumprido o ritual do "Olá, como vai, tudo bem, eu vou indo, e você?" fui informado que deveria tirar meus sapatos. Um tanto constrangido pelo estado das minhas meias, atendi seu pedido sem muito questionar. Afinal, a casa era dele. Mas isso me fez pensar... Um outro amigo, que nunca mais visitei, proibiu a mim e a minha esposa de fumar em seu apartamento. Larguei o vício há cerca de um mês e, apesar do incômodo, procuro não "proibir" minha esposa de fumar. Afinal, a casa é nossa.
Parece que, há muito, a expressão "pode entrar que a casa é sua" caiu em esquecimento. O prazer em receber alguém em casa deu lugar ao individualismo. Vivemos presos em casulos acreditando, como os 64% da população, que uma arma pode nos proteger. Nossos amigos, de vez em quando, dão uma passadinha no Orkut para nos visitar, enquanto suas esposas fazem compras no Submarino. Se ninguém der as caras, é só dar uma "zapeada" pelos canais a cabo que a solidão vai embora. Se encontrarmos a turma do Seinfeld, então, nem se fale! Ali sim, estamos em boa companhia.
O prazer hoje é cômodo e virtual. Eu, particularmente, sou um individualista. Confesso que gente sem assunto me aborrece profundamente. Na maior parte do tempo, prefiro a companhia de um bom livro, cd ou dvd. Mesmo assim, adoro receber gente em casa. Nesses raros momentos, espero que essas pessoas se sintam bem... É claro que não vou deixá-las colocarem o último show da Banda Calypso no meu home-theater, mas também não vou obrigar ninguém a uma sessão radical de jazz experimental. Os amigos são como os clientes de uma loja e, como tais, precisam, no mínimo, se sentir confortáveis.
Digo isso porque recentemente encomendei um produto numa loja indicada por um distribuidor. O preço dela era o melhor de todas. O lugar, no entanto, um horror: algumas salas alugadas num prédio de poucos andares em um bairro de pouca tradição comercial. Em exposição na vitrine o produto, além de estar fora da caixa, tinha um leve arranhão e não estava com os acessórios originais. Como se não bastasse, o "dono" não largou o telefone um só minuto e quando consegui sua atenção negou-se a me dar um desconto.
Muitos "empresários" ainda não entenderam que um cliente pode ser tão ou mais importante que um verdadeiro amigo. E que amizade é uma via de mão dupla. Até em religião é assim! Ninguém reza se não estiver esperando que a sua graça seja atendida. Nenhum amigo estende a sua mão se não puder contar com uma mão estendida quando precisar.
Todas as relações pressupõem uma troca. Inspiramos oxigênio e expiramos gás carbônico. Comemos caviar e eliminamos sabe-se lá o que... Entramos numa loja para comprar um par de lentes e saímos com quatro pares de óculos. A moça do balcão era simpática... Por tudo isso, preferi pagar R$ 30 a mais numa outra loja conhecida que, não só não me pediu para tirar os sapatos como me estendeu um tapete vermelho.
Luiz Tadeo Correia, o Cebola, é jornalista, professor, publicitário e radialista. Apesar de totalmente cético, recebe o espírito de porco do Paulo Francis quando o colesterol sobe. É autor do site:
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